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Quando a emoção não enfraquece a comunicação

A despedida de Messi mostra como a emoção pode fazer parte da mensagem sem comprometer a clareza, quando é coerente com o momento, o contexto e o orador.

Quando a emoção não enfraquece a comunicação

Comunicação emocional

No dia 6 de outubro de 2026, Lionel Messi despediu-se da seleção argentina, depois de mais de duas décadas a representar o seu país.

O último jogo, no Estádio Monumental, em Buenos Aires, terminou com uma vitória por 3-0 sobre o Benim. Messi marcou um golo, participou nos outros dois e recebeu uma homenagem perante milhares de adeptos.

Mas houve um momento que merece atenção por razões que ultrapassam o futebol.

Depois do jogo, Messi pegou no microfone e falou para o estádio, visivelmente emocionado.

Antes de continuar, recomendo que vejas a intervenção. O vídeo permite observar aspetos que se perdem quando analisamos apenas as palavras.

Ver o discurso completo de despedida de Lionel Messi, publicado pela Rádio Mitre

Vale a pena prestar atenção à voz, às pausas, à expressão corporal e, sobretudo, à relação entre aquilo que Messi diz e o momento em que o está a dizer.

A emoção não destruiu a mensagem

Existe uma ideia bastante difundida de que comunicar bem exige controlo absoluto.

Voz firme. Frases perfeitamente construídas. Corpo estável. Emoções discretas.

Como se qualquer sinal de nervosismo, tristeza ou vulnerabilidade retirasse qualidade a uma intervenção.

A despedida de Messi permite questionar essa ideia.

A emoção estava presente. Era impossível ignorá-la. E, ainda assim, a mensagem manteve-se compreensível.

Messi agradeceu aos adeptos, aos colegas, à família e às pessoas que fizeram parte do seu percurso. Falou do orgulho de representar a Argentina e da dificuldade de abandonar algo que tinha ocupado grande parte da sua vida.

Não precisou de esconder aquilo que sentia para que as pessoas percebessem aquilo que queria transmitir.

Pelo contrário, naquele momento, a emoção fazia parte da própria mensagem.

O momento muda a forma como interpretamos a comunicação

Imagina aquela mesma intervenção noutra situação.

Um responsável de uma empresa apresenta os resultados financeiros do trimestre. A voz quebra-se repetidamente, surgem longos silêncios e torna-se difícil concluir as frases.

O público pode interpretar esses sinais como nervosismo ou falta de preparação.

Agora regressa ao Estádio Monumental.

Estamos perante um homem que termina uma relação de mais de vinte anos com a seleção do seu país, rodeado de milhares de pessoas que acompanharam grande parte desse percurso.

As circunstâncias são completamente diferentes.

Uma pausa que poderia criar desconforto numa apresentação técnica pode transmitir significado numa despedida.

Uma voz emocionada que dificultaria determinada intervenção pode ser perfeitamente coerente com outra.

A comunicação não acontece fora da realidade. O momento, as circunstâncias e aquilo que as pessoas sabem sobre a situação influenciam a interpretação da mensagem.

É precisamente por isso que o Método RITMO inclui o Momento e contexto como um dos seus cinco fatores.

Avaliar uma técnica isoladamente, sem considerar onde e quando é utilizada, pode levar-nos a conclusões erradas.

O comunicador também faz parte da mensagem

Messi nunca construiu a sua imagem pública em torno de grandes discursos.

A sua comunicação é habitualmente mais reservada do que a de outras figuras do desporto. Não procura ocupar o espaço da mesma forma que um apresentador profissional ou um orador habituado a conferências.

Isso torna a despedida especialmente interessante.

Não vemos alguém que decidiu adotar uma personagem para aquele momento. Vemos uma pessoa cuja forma de comunicar é coerente com a imagem que o público conhece dela.

Esta coerência é importante.

Imagina outro jogador a tentar reproduzir as mesmas pausas, o mesmo ritmo e o mesmo grau de emoção, apenas porque viu que funcionaram com Messi.

O resultado poderia soar completamente artificial.

Podemos aprender com uma intervenção sem transformar a sua execução num modelo universal.

Na comunicação profissional, conhecer o orador é tão relevante como conhecer o público.

A emoção, por si só, não garante autenticidade

Há, contudo, um cuidado que não devemos ignorar.

Também é possível utilizar a emoção de forma calculada. E uma pessoa pode estar genuinamente emocionada e, mesmo assim, perder a capacidade de comunicar aquilo que pretendia.

A emoção não torna automaticamente um discurso mais verdadeiro, mais claro ou mais eficaz.

O que interessa é perceber de que forma se relaciona com a intenção, com a mensagem e com o público.

No caso de Messi, a despedida tinha um propósito reconhecível: agradecer, recordar e encerrar uma etapa.

O público conhecia o percurso e compreendia o significado do momento.

Por isso, a emoção não precisava de ser explicada ou justificada. Era compatível com aquilo que estava a acontecer.

O que podemos retirar desta despedida?

Pensa numa situação profissional em que tenhas de agradecer publicamente a uma equipa depois de um projeto exigente.

Ou numa despedida de colegas com quem trabalhaste durante muitos anos.

Seria estranho exigir que todas essas intervenções fossem feitas com absoluta neutralidade emocional.

Da mesma forma, numa reunião em que é necessário tomar uma decisão difícil, a emoção pode exigir maior cuidado para não desviar a atenção dos factos ou das consequências dessa decisão.

O objetivo da formação em comunicação não deveria ser ensinar as pessoas a esconder sistematicamente aquilo que sentem.

Deveria ajudá-las a compreender como as emoções influenciam a voz, o ritmo, o corpo e a relação com o público, para que possam gerir melhor cada situação.

Porque o público não recebe as palavras, a expressão facial e o tom de voz como elementos completamente separados. Interpreta o conjunto.

E, quando esses elementos são coerentes com a mensagem e com o contexto, a comunicação pode ganhar força.

A comunicação profissional continua a ser humana

Há momentos em que controlar a emoção é necessário. Há outros em que escondê-la pode retirar naturalidade e significado àquilo que queremos transmitir.

O desafio está em perceber a diferença.

Em vez de perguntarmos se um bom comunicador pode emocionar-se, talvez seja mais útil perguntar se aquela emoção ajuda ou dificulta a mensagem, perante aquele público, naquele momento.

Na despedida de Messi, a emoção não o impediu de comunicar.

Fez parte daquilo que tinha para dizer.

E talvez essa seja uma das lições mais interessantes para quem continua a confundir uma boa comunicação com uma execução tecnicamente perfeita.